Primeiro Dia
Toda história tem um inicio. E se alguém está lendo esse diário quer dizer que a minha teve um fim.
Sou Aquiles. Um caçador de vampiros. E um dos bons.
Além disso, sou sensitivo. Não desses charlatões que você vê na TV. Eu posso sentir seres mágicos desde criança, uma sensação diferente, que só bem mais tarde entendei do que se tratava. E posso “falar” com os mortos. Não como se eu visse fantasmas, pelo contrário. Eu posso ver os últimos momentos de vida de um ser morto recentemente, pouco menos de sete dias, mais precisamente, desde que seus olhos do defunto estejam intactos... Ou realmente conversar com eles, mas então a morte deve ser no máximo antes de um dia ou dois. E ninguém pode mentir pra mim, ou quase ninguém. Não posso chamar de “dom” saber quando uma pessoa está mentindo... É quase um mesmerismo, um hipnotismo, mas poucas pessoas podem mentir para mim por muito tempo.
Sei que só por esses parágrafos já me acham louco. Não lhes tiro a razão. Eu mesmo não acreditaria em minha vida se não a tivesse vivido. Mas dei-me a chance de, pelo menos, entreter-lhes com as histórias de um louco.
Sou ex-policial civil. Fui um dos melhores. Meus “dons” garantiram que em pouco tempo eu já fosse um dos principais investigadores do estado. Era o que eu fazia de melhor, e era o que eu gostava de fazer. O templo em plantão me revigorava, vendo que essas maldições, que levaram minha avó a ser internada como louca, ajudavam outras pessoas.
Mas o ócio é terreno fértil para o mal. O tempo fora das ruas, passados em casa me estafavam. Em pouco tempo na corporação aprendi com colegas mais experientes que o tempo de folga era uma ótima forma de ganhar, ou perder, dinheiro de forma ilegal.
Não me interessava à corrupção. Mas uma grana a mais no bolso viria a calhar. Falei com conhecidos e em pouco tempo transformei minha sala em um escritório de detetive particular. Podem me chamar de fútil ou fácil, mas seguir maridos infiéis era muito mais interessante do que assistir a Globo e toda sua lavagem cerebral. Pouco tempo depois já investigava por conta própria casos que a polícia tinha arquivado, ou casos que os envolvidos não queriam policiais em serviço perto deles.
Três anos após me tornar policial, numa terça feira chuvosa em casa, sem trabalhos informais e com uma garrafa de rum a me ajudar a passar o tempo, aparece em minha porta outro caso problemático.
Rodolfo não se importou em dividir uns goles de rum comigo enquanto me explicava o caso. Sua filha havia desaparecido duas semanas antes.
As perguntas de praxe da profissão me colocaram a par do assunto: Rodolfo era bicheiro na zona leste, e tinha arrumado encrenca com alguns traficantes pela posse de uma boca grande. Sua mulher havia sido morta, um ano antes, pelos traficantes, a agora sua filha havia desaparecido.
O álcool, minha impulsividade e a simplicidade do caso (armar contra uns traficantes filhos da puta, entrar na boca, meter bala em alguns e tirar do presunto a localização da menina) me fizeram aceitar o caso. Mal sabia eu que toda minha vida iria desmoronar por causa de um simples aperto de mão...
Não precisei de muito esforço pra pegar um dos malditos, leva-lo até a delegacia e fazer com que o desgraçado abrisse o bico. Falou até mais do que devia, de assassinatos e de droga, muita droga. O suficiente pra convencer meus superiores e mandar colocar o barraco abaixo.
Depois de desligar os gravadores e retirar minha influência de sua língua, deixando-o livre do dever de sempre contar a verdade, o meliante me olhou no fundo dos olhos e disse: “’cê é um homem morto, policial, mexeu com o defunto errado dessa vez”. Não sei até hoje se ele sabia algo da minha outa habilidade, se era um amaldiçoado como eu ou se ele sabia o que eu encontraria...
A batida foi de madrugada. Entramos arrombando tudo, metendo bala em folgado que fugia. Meti três tiros no peito do dono da boca, um merdinha chamado Jonas. Tive que me desculpar por ser tão impulsivo aos meus superiores, mas forjar que ele tinha uma arma e tentou me acertar primeiro foi fácil.
Revirei cômodo por cômodo daquela mansão, mas não achei a garota. Resolvi ir pelo meio mais cansativo: interrogar o defunto. Pedi um tempo na geladeira, onde ficavam os presuntos, e coloquei a mão por cima dos olhos vidrados do chefe. Em menos de meio minuto me concentrando um espectro do maldito apareceu. O diálogo abaixo é o que consigo me lembrar:
Jonas: Não basto me matar, agora me prende nesse mundo bruxo filho da puta?!
Eu: A barca do inferno te espera, você arruinou muitas vidas pro demônio permitir que você fique desse lado por muito tempo, por isso vamos rápido. Cadê a garota? A filha do bicheiro?
Jonas: Só por isso ‘cê me mato? Maldito. Sei lá que bruxaria ‘ta fazendo, me mantendo aqui depois de morto e me impedindo de mentir, mas eu te amaldiçoo! Até a ultima geração! Não fiz nada com a garota, pedi um favor pra um amigo meu, não sei onde ela ‘tá.
Eu: Me dê o nome dessa infeliz e onde acho ele, que vai ser o próximo a morrer então.
Jonas: Ele já ‘ta morto, seu policia! Quero ver ‘cê ata ele de novo, quero ver!
Manter meus dois dons funcionando ao mesmo tempo me cansava muito nessa época. Fiz o presunto me dizer onde encontraria esse amigo dele, mas não consegui muita coisa. Libertei seu espírito e rumei pra minha sala, faria qualquer coisa pra descobrir quem era o maldito que estava com a garota, e se pudesse meteria bala nele e nos capangas dele também.
Depois do meu turno, dirigi até minha casa e pedi pro Rodolfo me encontrar lá. Coloquei-o a par de todas as novidades, sem contar minha conversa com o defunto. Quando falei que tinha noticias de que sua filha estava nas mãos do amigo do traficante, o senhor fez o sinal da cruz.
Ele tirou do bolso um rolo de notas, muito mais do que o acordado entre nós, e pediu para dar o caso por encerrado. Disse que amava muito sua filha, mas que ela já estava morta.
Insisti para que ele me explicasse sua declaração, mas não consegui. Mesmo cansado por usar meus dons tantas vezes no mesmo dia, tive forças mentais para forçar o bicheiro a me explicar.
O que ele falou me surpreendeu. Disse que sua filha já deveria estar morta, que o raptor era um vampiro. Na hora pensei que tinha falhado em meu hipnotismo e deixei o velho ir, amaldiçoando Jonas que tinha me feito gastar muita energia. Eu estava errado.
Não dormi bem naquela noite, e não consegui tirar da minha cabeça a voz do bicheiro dizendo que sua filha já estava morta. Resolvi voltar à delegacia e procurar por indícios de algum vampiro.
No outro dia eu levava pra casa várias pastas de crimes não resolvidos, ou resolvidos de forma que não parecesse um fracasso da polícia. Li e reli cada um deles, procurando padrões de atividades paranormais. Meu lado racional não podia crer em vampiros, mas meu lado mágico não me permitia duvidar de nada.
Parei de pegar casos particulares, já não trabalhava tão bem como antes. Tudo por causa de uma fixação: vampiros. Nunca antes tinha pensado a sério se existiam pessoas como eu que podiam falar com os mortos ou hipnotizar pessoas de verdade. Talvez esse terrível vampiro não fosse nada mais do que uma pessoa como eu que se aproveitava da fama dos vampiros para aterrorizar e dominar traficantes e outros malditos do submundo.
Quando descobri onde vivia o dito vampiro, armei uma batida em sua residência. Levei comigo minha espingarda armada com os cartuchos Sopro do Dragão. Se realmente existissem vampiros, todas as lendas diziam que tinham medo do fogo, e se fosse um humano como eu, se borraria todo ao ver uma espingarda cuspir um cone de seis metros de fogo pra cima dele.
Eu e mais cinco homens partimos numa noite de terça feita, exatamente sete semanas após a visita do bicheiro à minha casa. Entramos arrombando tudo. Eu gostava de discrição para investigar, mas na hora da ação muito barulho causa muito mais impacto do que apontar uma arma e dizer: você está preso.
Quando acabou minha munição de fogo apenas um maldito estava de pé. Eu tinha queimado boa parte do seu corpo, mas não estava em condições físicas suficientes pra vencer uma briga. Cambaleando, eu e ele, nos engalfinhamos numa luta estranha. Ele, atacando com garras no lugar de mãos e com dentes muito afiados. Eu, com um pé duma cadeira improvisado de estaca. Tive sorte, admito, de enterrar a estaca no coração da criatura. Mas para meu espanto, ela não virou pó como os outros dois ao serem atingidos por meus tiros. A criatura ficou paralisada.
Até hoje acho que a centelha da loucura nasceu em mim naquela sala. Vieram em minha cabeça algumas lendas que tinha encontrado durante minhas pesquisas de que o sangue vampírico podia curar todos os ferimentos de um mortal. Não sei se por coragem, por desespero ao ver meu sangue escorrendo de meu corpo sem conseguir estanca-lo ou por pura curiosidade, acertei o corpo paralisado do vampiro com o cabo a espingarda, até fazê-lo sangrar. Bebi de seu sangue, até a ultima gota, até a criatura virar pó. Cada gole dado, mais meu corpo se regenerava. Mas não era só isso, muito poder e força vieram acompanhando a cura. Meu dom saiu do controle, e eu pude ver e tocar fantasmas que mesmo me esforçando não conseguia chamar, fantasmas mortos há muito tempo, atormentados que vagavam pelo mundo dos vivos sem serem vistos...
Não me lembro do que aconteceu em seguida, o que relato foi me dito por meus psicólogos:
Fui encontrado naquele porão, cercado de corpos mutilados e muito sangue. Estava totalmente fora de mim, conversando com pessoas que não existiam, rindo de nada e de tudo, falando de monstros que sugavam sangue e desmembravam pessoas com as mãos nuas. Estava visivelmente drogado, algo tão forte que me tirou da realidade por cinco dias. Mas não encontraram nada de diferente em meu sangue. Fui diagnosticado como louco, e internado por dois meses. Só me deixaram sair do manicômio quando disse que não via mais nada que não existisse. O que é mentira, até hoje.
Claro, fui afastado da polícia. Agora sou aposentado, com salário integral. Uma sorte, por que agora com os extras de detetive particular consigo comprar todo o armamento que preciso para caçar os vampiros.
Foi um outro caçador que encontrei um dia que me disse para fazer um diário. Eles são úteis, principalmente para deixar algo contra os vampiros quando nós morrermos. Outros lerão nossos diários e continuarão nosso trabalho.
Honestamente? Eu achei uma baboseira isso. Não caço vampiros por ódio ou vingança como a maioria dos outros caçadores. Nem por acreditar que é uma cruzada de fé, como os Inquisitores modernos, a Sociedade de Leopoldo. Ou por intrigas politicas, como os próprios vampiros se caçam ou como os magos se metem na sociedade vampírica. Não... O que eu busco é mais daquele sangue amaldiçoado! Mais daquele poder, mais daquela loucura!
